terça-feira, 8 de abril de 2008

A farra do carro zero

CRÔNICA DO TAN 07/04/2008

A farra do carro zero
Por Tancredo Junior

Um amigo meu me contou que resolveu comprar um carro novo popular. Reservou o equivalente a 20% do valor do automóvel para dar de entrada e amortecer no financiamento. Para sua surpresa, o vendedor lhe convenceu a comprar um modelo mais completo, em 99 prestações, sem entrada, com seguro e IPVA já inclusos. E o dinheiro da entrada? "Coloquei um som de primeira, rodas de liga leve aro 17, vidros escuros e ainda sobrou um troco pra passar o feriadão na baixada com a família", disse ele, eufórico com o negócio que fez.
Na verdade, ele não comprou simplesmente um carro, comprou um e vai pagar dois. Assumiu uma dívida que vai lhe custar quase o dobro do valor do bem adquirido, só de juros, além de consumir mais da metade da renda familiar todo santo mês. Essa conta ele se esqueceu de fazer.

Nunca se vendeu tanto carro no Brasil.

O Brasil vive o seu melhor momento na história da indústria automobilística. As montadoras projetam pesados investimentos na ampliação das fábricas para atender a demanda cada vez mais crescente. Nunca se vendeu tantos automóveis no País. Só na cidade de São Paulo, são emplacados, diariamente, cerca de mil novos carros. Fazendo-se uma conta bem simples, podemos chegar a mais de 26 mil automóveis por mês, ou seja, 312 mil por ano. A capital paulista está abarrotada de veículos, e até mesmo o rodízio municipal já não é suficiente para por em ordem o lento e estressante anda-e-pára.
Não há especialista em planejamento de trânsito que consiga achar uma solução eficiente pra tanto carro nas ruas da cidade. A CET que o diga. Tenta, em vão, criar rotas alternativas e minimizar os recordes sucessivos de congestionamentos diários que antes tinham horários certos para acontecer, mas que agora ocorrem a todo o momento, imprevisíveis.
"A culpa é do financiamento fácil", dizem os mais ortodoxos. Ao comentar sobre a situação caótica do trânsito em São Paulo, um experiente jornalista expressou sua opinião, em rede aberta de TV, saindo-se com uma máxima do tipo "hoje, com qualquer cinquenta merréis por mês, um cidadão compra um carro zero, provocando esse congestionamento infernal que estamos vendo."
A verdade é que o brasileiro é apaixonado por carro, e com tanta facilidade ao seu dispor, quem tem uma renda mínima comprovada não vai pensar duas vezes para adiquirir o seu "pois é". Perguntem a qualquer indivíduo quais são sonhos e ele vai responder "ter minha casinha e meu carrinho".

Além da questão do financiamento fácil, existe o problema do trânsito, cada dia ainda mais lento e insuportável.

Uma das opções sugeridas pelo pessoal da equipe econômica do Lula para conter esse boom nas vendas, seria limitar o número de parcelas do financiamento, em no máximo 36 meses.
A indústria, logo de cara, não gostou da idéia. "Noventa e nove prestações é muito", disse o ministro Mantega, que ameaçou colocar um limite na farra do carro zero. Só ameaçou, depois disse que não disse isso, e no fim ficou assim mesmo. Impossível impor limites quando a economia está aquecida e gerando renda.
Os comerciais no rádio e na televisão incitam o consumidor. Os anúncios com apelo gráfico nos principais jornais e revistas não deixam por menos: "compre seu carro zero em até 99 prestações sem entrada!". É tentador. E perigoso, também.
O perigo está na qualidade das concessões desses créditos. O presidente Lula demonstrou essa preocupação. Talvez a equipe econômica do governo esteja temerosa que aconteça aqui o que aconteceu lá nos EUA, com o financiamento indiscriminado dos imóveis, que resultou na quebra de dezenas de bancos, obrigando o Federal Reserve a injetar bilhões de dólares na economia para evitar um colapso no sistema financeiro. Será?

Deixar o carro em casa e usar o "péssimo" transporte público. Quem se habilita?

"O negócio é deixar o carro em casa e andar de ônibus e metrô, só assim o trânsito melhora". Pelo menos é isso que as autoridades no assunto defendem. E assim o fazem por não utilizarem os meios de transporte público que a maioria da população faz uso no dia-a-dia. Gostaria de ver o Kassab e sua equipe de secretários pegando os trens de subúrbio lotados, ou os ônibus que fazem fila nos corredores logo no início da manhã, parecendo latas de sardinha, com gente pendurada nas portas, num calor insuportável. Sem falar naqueles motoristas mal-humorados, que até parecem estar dirigindo uma carreta de bois, freando bruscamente e dando uns trancos insuportáveis na troca das marchas. O sujeito chega ao trabalho cansado, nervoso, atrasado e ainda leva bronca do patrão.
Para convencer as pessoas a deixarem os seus carros na garagem, seria fundamental a criação de políticas públicas de investimentos maciços em transporte de qualidade e eficiente. Mais corredores, ônibus confortáveis e com ar-condicionado seriam medidas interessantes, para começar. Já leram aquela frase impressa na leteral de alguns ônibus, que diz que o transporte público é direito do cidadão e dever do Estado? Então, está na hora de se fazer valer esses direitos e deveres.

A tentação de comprar um carro zero também me rondou.

Confesso que, apesar de relutar muito, ainda permaneço solidário aos usuários do sistema de transporte provido pelo Estado. Até criei uma campanha intitulada "Deixe seu carro em casa e ganhe de presente uma viagem interminável e desconfortável no transporte público". Já tenho alguns adeptos – bem poucos, eu sei, que aderiram por livre e espontânea necessidade, mesmo.
Mas paciência tem limites. De tanto ser amassado e pisoteado nos buzões dessa Sampa de meu Deus, quase me deixei convencer de que deveria engrossar as fileiras dos neomotorizados. Afinal, que diferença faz um carro a mais disputando espaço com os motoboys em nossas ruas e avenidas?
Um processo de tentativa de convencimento começou com os amigos. Uma trama ardilosa para me fazer sair do MSC - Movimento dos Sem-Carro. "Deixa de ser bobo, rapaz! Compra um carro zero, é melhor do que andar apertado", me alfinetou o lider deles. Até em casa o complô se formou contra mim. Minha mulher soltou esta pérola: "Se eu fosse você, comprava aquele carro dos seus sonhos!". Como me livrar de tamanha persuasão feminina, oriunda justamente daquela que conhece os meus planos frustrados de ser um piloto de Fórmula Um? Até o meu filho, aficionado por carros, inflou o meu ego: "Já pensou você naquele carrão, pai?! Show de bola! Você merece!". Pronto. A dúvida fora semeada em meu coração defensor do projeto "deixe o carro em casa".
A tentação se agigantou quando recebi uma carta do meu banco me informando que eu tinha um crédito já aprovado para financiar um automóvel, qualquer modelo, até mesmo aquele dos meus sonhos! Tudo parecia estar contra mim. Acabaria vencido pelo voto da maioria. O inimigo mortal do financiamento e dos carros nas ruas seria neutralizado!

Dois dias depois estava eu, passando em frente a uma concessionária, e lá estava o bendito carrão, todo reluzente, prateado, como se olhasse para mim e me convidasse a fazer um test-drive e o levasse para minha garagem. Resisti-lhe duramente e dei meia volta. Não poderia – pensei com os meus botões – cometer dois erros de uma só vez: entrar em um financiamento de "suaves" noventa e nove prestações, ao mesmo tempo em que passaria a fazer parte do clube dos motoristas estressados de São Paulo. Era contra os meus princípios.
Preferi deixar como estava. Pelo menos, por enquanto. Continuo a acreditar que a melhor solução para minimizar os problemas dos extensos congestionamentos nas grandes cidades é justamente deixar o carro em casa. Pelo menos, até o dia em que eu me cansar de vez e decidir sair do aperto e calor dos ônibus e trens para trafegar em um moderno, confortável e climatizado carango com câmbio automático.
****
TFSJ
Tancredo Junior, 35 anos, é casado, radialista, teólogo e acadêmico de Jornalismo na UNIP

Um comentário:

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